A Guardian tornou públicas as pressões de Tatcher sobre Gorbachov a quando da greve dos mineiros ingleses. Ao que parece, os sindicatos soviéticos estavam disponíveis para ajudar financeiramente os grevistas ingleses. Sem independência face ao poder político, acabaram por ceder. A greve durou um ano e foi o mais duro confronto entre os conservadores britânicos, pioneiros da vaga liberal na economia europeia, e um dos mais fortes movimentos sindicais do Mundo. Foi ganha pelos primeiros. Com ajuda, já agora, do general Jaroselsky, ditador polaco que tratou de garantir o fornecimento de carvão ao Reino Unido.
Neste confronto estava em causa muito mais do que as questões concretas que preocupavam os mineiros ingleses. Era um confronto entre o Estado Social que vigorava no Reino Unido e o neoliberalismo. Era um confronto entre o capitalismo industrial em decadência e o capitalismo financeiro que acabou por se impor. E era a jogada de vida ou morte do sindicalismo europeu.
São dezenas de filmes a retratar essa greve histórica. Um ano de resistência é obra. E só sindicatos com a pujança que os ingleses então demonstravam podiam ter chegado tão longe. Mas Thatcher percebeu o que estava em causa. Não cedeu um milímetro. E venceu.
Faltou, não aos sindicatos soviéticos, meras correntes de transmissão do poder, mas aos da Europa ocidental terem percebido o mesmo. E terem-se mobilizado para apoiar financeira e politicamente os que se encontravam na linha da frente daquela derradeira batalha. Não perceberam o que estava em causa. Cada um estava a tratar de si. E a derrota dos mineiros ingleses, com a ajuda do fim do Mundo bipolar, marcou a decadência do sindicalismo europeu. E com ele, a decadência da esquerda em geral, e da social-democracia e do trabalhismo europeu em particular.
Não se aprendeu ainda a lição. Perante a crise europeia e o segundo “round” contra o Estado Social, ainda é a custo que os sindicatos se coordenam. Os gregos tratam dos gregos, os alemães dos alemães, os portugueses dos portugueses. E o nacionalismo, essa doença senil da esquerda europeia, promete uma nova derrota histórica. Nem sequer o apoio ao fortalecimento de um sindicalismo livre em países emergentes como a China, que consiga garantir direitos sociais e valorização mais rápida dos salários, acabando com uma concorrência desleal em que perdem eles e perdemos nós, parece ser uma preocupação.
Mesmo para quem, como eu, não é marxista, vale sempre a pena aprender com o mestre. Disse o barbudo que o capitalismo não tinha pátria. E daí concluiu que também não a tinham os trabalhadores. Não perceberam os sindicatos da Europa que a greve dos mineiros ingleses era a sua greve. Não percebem que a crise grega ou portuguesa é a sua crise. E enquanto não perceberam isto estarão sempre a perder.
Publicado no Expresso Online.
23 comentários 3 Set 10 em Sem categoria
Violando todas as regras europeias, Sarkozy continua o repatriamento dos ciganos romenos e búlgaros. Em tempo de crise, há que encontrar alvos fáceis. E eles tanto podem ser ciganos, os imigrantes ou apenas os mais pobres dos mais pobres. É dos livros: atiçando o povo contra os desgraçados se salvam os poderosos.
Eternos perdedores, expulsos vezes sem conta dos seus próprios países, os ‘romas’ tiveram direito ao mesmo tratamento dado aos judeus nos campos de concentração nazis. Mas nem a história recorda o seu meio milhão de mortos durante o Holocausto. Párias de sempre, foram sendo, como os judeus, bode expiatório de todos os males. Como todos os povos sem terra, foi sempre o isolamento que os salvou. Com algumas diferenças: ao contrário dos judeus não têm uma religião própria, ao contrário dos arménios e dos curdos não têm uma origem territorial clara e ao contrário dos beduínos o seu modo de vida desapareceu sem remédio. Nada, a não ser as suas leis arcaicas e os seus estranhos costumes, os protege da assimilação que não lhes reservaria mais do que o fundo do fundo da pirâmide social. Hostilizados por todos os regimes, aprenderam a desconfiar dos estranhos e a recusar qualquer contrato social. Mas eles são, desde a Idade Média, tão europeus como qualquer europeu.
Não fujo ao problema: conviver com os costumes ciganos não é fácil. Porque para conviver com a diferença não chega boa vontade. E a coisa piora porque as suas regras são de um tempo que acabou. A esmagadora maioria dos ciganos já não é nómada. As atividades a que se dedicavam foram industrializadas e eles perderam o seu lugar nas nossas sociedades. Restam-lhes duas possibilidades: ou se integram e desaparecem enquanto comunidade ou resistem numa tensão permanente com tudo o que os rodeia. Não é uma escolha fácil.
Do nosso lado, a alternativa ao ódio não deve ser negar a dificuldade. Depois de tantos séculos, talvez seja altura de perceber que, mesmo que a integração se vá fazendo, ela não deixará de ser dolorosa. A resposta europeia aos que preferem escarafunchar na ferida para ganhar vantagem política é ir resolvendo conflitos. E isso demora tempo. Séculos. A eternidade. Porque, já se sabe, o inferno são os outros. E os ciganos sempre foram os outros.
Publicado na última edição do Expresso
165 comentários 2 Set 10 em Sem categoria“Tal como em 2008, contudo, penso que a principal motivação das pessoas não é apenas os aumentos em si próprios (aspecto que nem por isso se torna menos relevante, e é uma machadada na sua tentativa de sobrevivência sempre precária), mas o sentimento de que eles são decididos pelo poder político sem consideração pelas necessidades e dificuldades da população.
E dificilmente algo poderá reforçar mais esse sentimento do que declarações como as de um representante governativo, esta manhã na rádio, aconselhando os ouvintes que se queixavam do aumento do pão a substituírem-no por outros produtos, «como a batata doce».
No entanto – e tal como acontece com os linchamentos urbanos em Moçambique – penso que aquilo que está em causa, para quem participa, não são tanto cada um dos problemas e ameaças concretas e identificáveis com que se confrontam (o pequeno ladrão, o aumento de cada bem essencial), mas uma situação generalizada de incerteza quanto ao futuro e à própria subsistência, num quadro em que sentem que ninguém os ouve, que não têm qualquer controlo sobre o seu futuro e que, quer eles quer as suas dificuldades, são considerados irrelevantes pelos poderosos que decidem.”
Ler post completo de Paulo Granjo aqui
40 comentários 1 Set 10 em Sem categoria
Este livro tem como tese central a ideia de que superar o capitalismo, de uma forma que expanda robustamente as possibilidades de efectivar concepções igualitárias e democráticas radicais sobre a justiça social e política, exige o empoderamento social na economia.
Erik Olin Wright, Envisioning Real Utopias, 2010, p. 367.
Parece que estou a falhar. Impõe-se a autocrítica: tenho passado todos os meus tempos blogosférico, na imprensa e na sempre precária academia a tentar criticar os neoliberais hegemónicos e algumas das suas fraudes intelectuais e a defender as virtudes da redução das desigualdades económicas, da manutenção e expansão do Estado social, que desmercadoriza esferas da vida social importantes, da regulação e taxação mais robusta da finança, da nacionalização de sectores estratégicos e das políticas keynesianas de pleno emprego. Esta mania, a cujas razões voltarei lá para o final destas notas desorganizadas, porque insisti em pensar que se inscreveria no melhor imaginário socialista, aquele que procura eliminar progressivamente as fontes socioeconómicas do sofrimento social evitável a partir do controlo democrático da economia, traduziu-se numa ilusão política perigosa: a de que é hoje possível e desejável construir um bloco social anti-neoliberal tão amplo quanto possível. Isto, obviamente, pressupõe que se supere uma dicotomia que tão maus serviços prestou a toda a esquerda, em geral, e ao socialismo, em particular: reformista ou revolucionário? Uma dicotomia que exclui, fecha e nem sequer clarifica, porque, entre outras razões, não ilumina as práticas políticas concretas de quem quer intervir com eficácia neste mundo. A avaliar por Nuno Ramos de Almeida (NRA) e por Luís Rainha (LR), devem ser esta insistência e esta ilusão que fazem de mim, respectivamente, um “reformista” e um ser desprovido de imaginação para tentar pensar para lá do “paradigma”, o que quer que isso seja. Que devo fazer? Talvez escrever. Talvez tentar mostrar como NRA faz uma interpretação equivocada do importante projecto intelectual das utopias reais e aproveitar esse facto para falar telegraficamente de socialismo, referindo de passagem a excelente resposta dada por Bruno Góis, no socialismo 2010 do passado fim-de-semana, à questão que tanto irrita, e ainda bem, os revolucionários do cinco dias – “Há socialismo sem democracia?”
Continue a ler ‘Por um novo impulso ao debate sobre o socialismo’
34 comentários 1 Set 10 em Sem categoria
Com um abraço para os amigos que fiz em Maputo.

Uma das propostas de Paulo Portas para o recomeço do ano político foi um referendo à possibilidade de julgar em 48 horas quem seja apanhado em flagrante delito a cometer um crime. Não vou aqui perder tempo com os perigos de um referendo em matéria penal ou com o que já existe na lei sobre esta matéria. Isso fica para outra jornada. Aquilo de que quero falar é desta forma de fazer política.
É evidente que o “sim” venceria num referendo deste género. E se se propusesse um julgamento em 48 horas para todo o tipo de crimes também. E se fosse para reintrodução da pena de prisão perpétua também. E de trabalhos forçados. E provavelmente da pena de morte. Porque a aprendizagem dos direitos cívicos, sem os quais não há uma verdadeira democracia, demora tempo.
Paulo Portas corresponde, em parte, a um determinado tipo de político: explora, antes de mais, o medo. E explorar o medo é explorar a irracionalidade das pessoas. Quem faz política usando a irracionalidade alheia não é só intelectualmente preguiçoso. É eticamente leviano e politicamente irresponsável. E explora o medo plausível, porque só esse tem uma eficácia esmagadora. Assim como o desprezo pelo imigrante e a raiva ao vizinho que recebe o rendimento mínimo. Explora a irracionalidade maioritária, que nasce de percepções difusas da realidade que se conhece.
Até aqui, nada de novo. Foi feito, por políticos destrutivos, vezes sem conta na história. Mas Portas corresponde também a um novo tipo de populista. Nele se incluem homens como Sarkozy ou como o falecido Pim Fortuyn. Gente inteligente, intelectualmente sofisticada, mas que aposta a sua sobrevivência política nos instintos mais primários dos cidadãos: o medo, a vingança, o preconceito, o racismo, a intolerância. Não são boçais como Bossi ou Le Pen. Conquistaram maior respeitabilidade e alguma patine cultural. Estão mais próximos das elites e movem-se melhor nos meios mediáticos. E são, por isso, muito mais perigosos. O que arrepia nuns passa por razoável neles.
Tem havido algum pudor em chamar a Portas o que ele é: o líder da extrema-direita portuguesa. Por ser sofisticado; por se ter, na medida do possível, afastado da herança salazarista que marca a direita radical portuguesa; por não corresponder ao estereótipo de um ultraconservador; e por ser líder de um partido com alguma tradição democrata-cristã. Mas se olharmos com atenção, a agenda do CDS aproxima-se da agenda de toda a extrema-direita europeia: combate à imigração e aos apoios sociais para os mais pobres e um discurso securitário e obcecado pela ordem (na escola, nas empresas, na rua). Mas talvez devêssemos pensar que se se parece com a extrema-direita, age como a extrema-direita e fala como a extrema-direita é bem capaz de ser mesmo a extrema-direita.
Junta-lhe apenas um pormenor: o liberalismo económico. E a questão é saber se foi a extrema-direita que cedeu ao Capitalismo que dizia combater no passado ou se foram os “liberais” que cederam ao populismo da extrema-direita. Inclino-me para a segunda. E ao decidirem seguir este caminho escolheram um espaço político. Um espaço em relação ao qual a direita civilizada tinha obrigação de manter um cordão sanitário. Em França não só não o manteve como adoptou como seu uma das mais sinistras figura deste novo tipo de populista.
Para que esse cordão sanitário exista e se mantenham fechados no baú da história fantasmas do passado seria necessário começar por dizer que o rei vai nu: Portas não está, pelo seu populismo desbragado, no arco da direita democrática. Tem apenas a vantagem de, com a sua presença, travar o crescimento de uma extrema-direita violenta. Mas nem por isso deixa de ser o que é.
Publicado no Expresso Online
147 comentários 1 Set 10 em Sem categoria“Lamento tudo o que se está a passar”.
Jogadores lamentam ausência do seleccionador.
A primeira afirmação de Gilberto Madaíl, lavando as mãos como um Pilatos enterrado até ao pescoço na fossa séptica em que se tornou o caso Carlos Queiroz, é vergonhosa. Neste momento, enquanto a selecção prepara o primeiro encontro da fase de apuramento para o Europeu, o melhor seria que tudo ainda piorasse mais. Queiroz não partirá, por muito que Laurentino Dias e a cabeça do polvo queiram. E chegou a um ponto em que manter a dignidade significa recorrer a todas as possibilidades de ordem jurídica de modo a prolongar o caso durante o maior período de tempo possível. Ninguém sai limpo, por muito que Queiroz deseje lavar a honra. E a última coisa com que todos os envolvidos estão preocupados é o futuro da selecção ou do futebol nacional. O último a sair que puxe o autoclismo (mas desconfio que vamos ter de levar com o mau cheiro durante muito, muito tempo).
12 comentários 31 Ago 10 em Desporto“É ainda interessante que o enquadramento dado à manifestação quando foi convocada (luta contra a lapidação por adultério) seja bastante diferente do enquadramento que é dado após a manifestação (Mas a figura de Sakineh foi apenas mais um pretexto para uma causa geral: lutar contra a pena de morte, seja ela de que forma for.). Fica a sensação de que o aderente menos atento aos pormenores corre sérios riscos de ser manipulado pelos organizadores destas manifestações.
João Miranda
Fábrica de calçado despediu funcionários por SMS.
É possível a uma empresa ser ainda mais fria e impessoal na hora que mais custa aos trabalhadores. O filme Nas Nuvens peca por ser um retrato demasiado optimista e caloroso do despedimento colectivo.
56 comentários 30 Ago 10 em Cinema, PortugalConsta que há aí um realizador de cinema que acha que o Porto joga melhor sem Hulk. Antes de o atento leitor se permitir sequer a ponderar na bondade de um sistema táctico organizado para um colectivo solidário em detrimento de Hulk, um criativo indisciplinado cuja noção de passe é passar por adversários, cabe lembrar que o dito realizador considera Jorge Jesus melhor treinador do que José Mourinho.
O que se passa não é tanto a incapacidade do dito realizador para emitir juízos sobre o futebol – ou sobre tudo o que se passe num raio de 5 quilómetros de um estádio de futebol -, a coisa é mais apetecível: sempre que o dito realizador se põe a dar palpites a realidade decide escarnecê-lo. Se quisermos ser místicos isto já chegou a um ponto em que é lícito supor que o dito realizador mexa com a realidade a partir do momento em que esta – a realidade – definiu como divertimento supremo gozar com os bitaites do dito realizador. Senão vejamos: o dito realizador diz que Jesus é melhor que Mourinho e pouco tempo depois Mourinho volta a ganhar uma Champions (já agora Mourinho ganhou uma Taça Uefa na sua primeira época completa num grande, Jorge Jesus conseguiu desbaratar a Liga Europa com o Liverpool mais risível da última década).
Continua. Na passada semana o dito realizador fez uma sentida elegia ao futebol do Matías Fernández, poucos dias depois, no jogo contra o Brondby, o chileno viria protagonizar uma das jogadas mais patéticas já acontecidas desde que os hominídeos assumiram a posição bípede: 4 jogadores do Sporting caminham para a baliza do Brondby só com um defesa nas redondezas, Matias conduz a bola. Suspense. O que faz o bom do Matias com 3 colegas ao lado? Aposta na sua extrema velocidade (pausa para gargalhada) e oferece um espectáculo na primeira fila os 3 colegas; uns privilegiados que tiveram oportunidade de assistir atónitos ao desamparo de Matias perante o defesa dinamarquês que tranquilamente lhe roubou a bola depois de lhe ter ganho 3 metros em duas passadas. No mesmo programa o dito realizador chamou a atenção para o modo como o Porto vinha passando bem sem Hulk. Acto contínuo: Hulk regressa e faz 5 golos em 2 jogos. (…)
“Ler mais – aqui“
Publicado na Liga Aleixo
46 comentários 30 Ago 10 em Sem categoriaNo Estado fiscal de classe, os ricos nunca pagam a crise: “Ao fim de dez anos de vigência da lei que tributa as manifestações de fortuna no âmbito do combate à evasão fiscal, a administração tributária tem obtido fracos resultados. O fisco continua sem acesso directo e em tempo real à informação que permite aplicá-la. Em 2005, a Inspecção-Geral de Finanças (IGF) alertou para esse facto, mas, como foi confirmado ao PÚBLICO pelo Ministério das Finanças, esse constrangimento mantém-se, sem que o Governo veja necessidade de o ultrapassar.” João Ramos de Almeida no Público.
14 comentários 30 Ago 10 em Sem categoria
“Enquanto a velha ordem morre e a nova não nasce, ainda surge uma grande variedade de sintomas mórbidos.” Esta frase, da autoria do filósofo político Antonio Gramsci, descreve na perfeição a crise e a política com “p” pequeno do bloco central, aquela política que se dedica a tentar manter o velho, ou seja, as estruturas do nosso capitalismo medíocre, uma máquina de gerar pobreza e desemprego.
Uma política onde as convergências fundamentais entre Sócrates e Passos Coelho são mascaradas com debates acessórios e onde os temas fundamentais são embrulhados numa nebulosa de oportunismo e de desrespeito por todos os contratos. Os benefícios fiscais são um dos sintomas mórbidos.
A campanha eleitoral das últimas legislativas ficou marcada pelas acusações de Sócrates a Louçã: as propostas razoáveis deste para limitar ou acabar com os socialmente regressivos benefícios fiscais à especulação financeira ou à saída das classes privilegiadas da saúde e do ensino públicos, a melhor forma de os enfraquecer a prazo, foram classificadas por aquele como um dos maiores ataques às sempre pardas “classes médias”.
Passaram uns meses e, já se sabe, para Sócrates o mundo mudou em quinze dias. Rasgue-se o programa eleitoral do PS e acorde-se com o PSD uma política de austeridade onde a fatia de leão do ajustamento cai sobre os trabalhadores assalariados mais pobres e sobre os desempregados; as limitações aos benefícios fiscais são um dos poucos vestígios de justiça social. De repente, os sociais-liberais do PS, como Correia de Campos, por exemplo, apontam, com todos os dados na mão, a flagrante injustiça, antes tolerada, dos benefícios fiscais à saúde. Morbidez.
Passos Coelho, por sua vez, assinou um acordo de austeridade com o PS, mas ameaça rasgá-lo, provavelmente sob pressão dos grupos económicos que agora o apoiam e que querem comer a fruta doce das rendas em áreas como a saúde, com muito financiamento público à mistura. Morbidez.
Entretanto, a morbidez intelectual acompanha a política. Num dos países mais desiguais da Europa, os economistas do velho reinam na televisão, porque se abandonou a ideia de que o debate deve ter contraditório. Defendem, por exemplo, que temos um “Estado social escandinavo”. Um luxo. Só para terem uma ideia, o peso da pouco progressiva receita fiscal e contributiva era de 34,8% do PIB no nosso país, em 2009, e, em média, de 45,8% nos países escandinavos. Estes até tendem a ter uma taxa de emprego superior e regulação muito mais exigente, vejam lá. E, talvez, menos morbidez política, até porque a maior igualdade económica gera mais confiança social e mais participação política.
Em Portugal, o silêncio ou o apoio destes economistas quando se corta nas prestações que protegem, e pouco, os mais pobres contrasta com o chinfrim de cada vez que se corta levemente em alguns dos privilégios dos que, sei lá, não podem deixar de colocar os filhos nos colégios privados. Outro sintoma de morbidez. Quando é que o novo nasce?
5 comentários 30 Ago 10 em Sem categoriaO Benfica, que parecia ter tudo preparado para avançar para outros voos, foi parado por uma ave rasteira, um Roberto que trouxe a equipa de volta à terra. O atleta parece ter-se perdido pelo caminho, preso nas redes de um negócio que Luís Filipe Vieira deveria explicar muito bem a todos os benfiquistas, mas veio à tona contra o Vitória de Setúbal, essa instituição benemérita desde 2009 (8-1 foi o ponto de partida, não esquecer isso).
A terceira jornada começa a definir posições: um Porto forte, um Sporting à procura de um pinheiro e um Braga comandado por um Domingos que, pese embora hesitações de personalidade do passado, parece ser o verdadeiro herdeiro de José Mourinho. E com esta proclamação espero concretizar a maldição associada – todos os que assim foram definidos acabaram perdidos numa qualquer quinta dimensão fundada por Luís Campos.
Roberto não merece o poleiro, nem com penalty falhado por Hugo Leal – o Moreira deve ser um dos benfiquistas mais mal tratados das últimas décadas. De titular aos 18 anos a um calvário de lesões e treinadores que sempre viram nele o patinho feio que nunca irá abandonar a ninhada, tem tido de tudo. E sem merecer. Melhor do que Quim, Júlio César ou Roberto, aceita o prolongamento de contrato em troca de um salário mais baixo. O amor ao Benfica é uma cruz difícil de carregar.
Quanto ao resto, Gaitán não é Di Maria – o óbvio ululante – mas aquele pé esquerdo pode fazer virar o sentido de um jogo. Os vinte e dois minutos de Salvio foram prometedores e a defesa parece começar a ganhar tino (se exceptuarmos o delírio momentâneo de Maxi). Falta Cardozo. Ou falta outro ponta-de-lança que não seja Cardozo. O que se passa com Rodrigo? E Coentrão corre o risco de se tornar o melhor lateral-esquerdo do mundo. Não é pouco.
A horda de anti-benfiquistas encontrou outro bode expiatório (o meu prazer culpado é ler os comentários das notícias sobre o Benfica na Bola): a equipa adversária. Se o árbitro não se envolveu em nenhuma caso polémico (houve um penalty por marcar a favor do clube da águia, mas isso são peanuts); se os túneis ficaram desertos ao intervalo; se não houve uma qualquer intervenção divina que tivesse levado as bolas na direcção dos postes e da barra; se mesmo com inferioridade numérica jogaram muito melhor – então a culpa só pode ser do adversário, que entregou o ouro ao bandido. Hugo Leal regressou às origens e falhou o penalty de propósito; Manuel Fernandes é amigo de Jesus; os jogadores do Vitória não se esforçaram; etc., etc. Tudo bem, espero que daqui para frente a imaginação da horda continue tão fértil como neste jogo. Cá estaremos.
*Esta é uma nova rubrica, sobre o Benfica, que conto actualizar todas as semanas.
40 comentários 29 Ago 10 em Benfica, DesportoAgora, que já se conhecem aqueles que deverão ser todos os candidatos à Presidência, lançamos um inquérito para saber em qual deles pretendem os leitores votar.
Quanto ao inquérito anterior (que aqui ficou abandonado durantes as férias, à pergunta “concorda com o financiamento directo do Estado a artistas independentes?” as respostas foram: “não”, 54%, “sim, mudando as regras actuais 34% e “sim, com as actuais regras”, 12%.
30 comentários 29 Ago 10 em Sem categoriaA crónica já aqui citada pelo Sérgio não merece, de tão pueril, grande comentário. Quem acha que a afirmação política da cidadania é inconsequente se não advogar a lei da bomba merecia experimentar por um dia que fosse as maravilhas das trincheiras, E é olhar para o Afeganistao para ver como resulta.
A verdade é que meio século de paz na Europa criou uma geração de meninos guerreiros de sofá. Pensando noutros colunistas que gostam de alardear as suas origens humildes, é o mesmo fenómeno que leva tantos filhos do Estado Social a desprezar o que a mobilidade social lhes permitiu. Preferem acreditar que o mérito chegaria.
Há jovens americanos que se alistaram para combater no Iraque e no Afeganistão para assim pagarem os seus estudos. Estou seguro que muitos dos nossos jovens turcos gostariam de experinentar este dois em um. Contribuiam para os “direitos humanos” no Mundo e aliviavam o peso do Estado. Talvez dessem então valor ao que lhes ofereceu esta “decadente” e “cobarde” Europa social: meio século de paz e de oportunidades.
52 comentários 29 Ago 10 em Sem categoriaA tonta croniqueta de João Pereira Coutinho, que tanta excitação espoletou, quer nos guerreiros de sofá de direita como nos bravos jihadistas da esquerda institucional-comunista (é bela, esta comunhão de contrários), tem a devida resposta do Ouriquense. O retrato de um artista enquanto jovem onanista:
(ler o resto)… Ora, a proximidade física entre as ergonómicas mãos de JPC e as fantasias juvenis que ricocheteiam no interior da sua cabeça é provavelmente o que de mais exibicionista e masturbatório se encontra hoje na imprensa. Tendo ainda em conta que na crónica online da Correio da Manhã a foto de JPC é do tamanho da mancha gráfica do texto, o que remete para o primado do estímulo visual sobre o enredo, ao ler “pornografia” e “poses exibicionistas e masturbatórias” não pude deixar de me lembrar que é no relato autobiográfico que Coutinho atinge o seu cume histriónico, mesmo quando são actos actos falhados - essa é uma das vantagens de saber que se está a ler um boneco e não uma pessoa, porque o espalhafato dos gemidos públicos de JPC deixa no ar a suspeita de um orgasmo fingido e só outros adolescentes o poderão levar a sério. Boys will be boys.
27 comentários 29 Ago 10 em IrãoA minha geração, a rasca ou à rasca, a primeira a sofrer as consequências da crise perpétua de Portugal, a geração que lutou contra as propinas – em vão, a geração dos professores a prazo que mais parecem caixeiros-viajantes, a geração de que os mais velhos não gostam e que os pais toleram, a geração que ainda não saiu de casa dos progenitores por não ter dinheiro para uma vida independente ou por comodismo consumista, a geração com uma taxa de desemprego que ultrapassa os vinte por cento, a geração precária, trabalhando anos e anos para o mesmo patrão (seja o Estado ou privado) a passar recibos verdes, a geração a que foi prometido o mundo se conseguisse uma licenciatura e que agora trabalha em call-centers, caixas de supermercado ou livrarias, a geração dos eternos estudantes, do bacharelato à licenciatura ao mestrado ao doutoramento e ao pós-doutoramento com via verde garantida para o desemprego ou um emprego abaixo da escolaridade ou a emigração em busca de um trabalho numa empresa ou universidade estrangeiras, a geração explorada por patrões de vistas curtas, geração que não sabe muito bem quais são as lutas justas, ou as válidas, ou sequer que lutas há para lutar, a geração que cresceu num Portugal optimista e chegou à idade adulta num país de rastos, sem confiança no presente nem esperança no futuro. A geração dos anos 80, das séries importadas, do Verão Azul e de Miami Vice, a geração da Spur Cola e das bombokas, a geração do Marco e da Galactica, a geração do Regresso ao Futuro e dos Gremlins, a geração que cresceu synth pop e se descobriu grunger quando entrou na universidade, a geração que tornou o alternativo mainstream e o mainstream respeitável. André Valentim Almeida decidiu fazer um comentário e, como membro de pleno direito desta geração, não conseguiu que fosse exibido comercialmente. Por isso disponibilizou-o on line. Sim, esta é também a geração que melhor consegue viver com todas as dificuldades, a geração “canivete suíço e uma pastilha do MacGyver”, a geração que resolve problemas, que sobrevive. O futuro. É ver o tal documentário, que vale muito a pena, aqui.
34 comentários 28 Ago 10 em Liberdade, Política(Esta manifestação, que se vai realizar em várias cidades à mesma hora (ver aqui), também pode ser uma oportunidade de ouro para muitos dos nossos comentadores geralmente indignados contra o Islão; é altura de passar das palavras aos actos: compareçam!)
Adenda: a frase que acompanha o cartaz pretendia ser uma pequena provocação aos comentadores habituais que costumam espumar de raiva de cada vez que aqui alguém fala da opressão na Palestina ou dos erros trágicos dos E. U. A. no Iraque e no Afeganistão. Curiosamente, quem mordeu o isco não foram os comentadores. Concedo que o tom irónico seja por vezes difícil de atingir num texto escrito – ou até que tenha sido pura e simplesmente inépcia minha. Aos comentadores deste post que se insurgem contra a minha suposta islamofobia (principalmente duas das mais empenhadas divulgadoras do protesto, a Inês Menezes e a Shyznogud), lamento que não tenha conseguido passar a mensagem da maneira correcta. É claro que esta é uma causa que eu partilho sem reservas, mas de forma alguma isto significa que tenha qualquer preconceito contra o Islão ou sequer contra o Irão (já em relação a Ahmadinejhad, tenho tudo contra). Mas mais lamentável ainda é que, depois de eu ter esclarecido neste post do Renato Teixeira qual o sentido deste texto, e de ele, respeitando uma ética blogueira implícita (sem ter obrigação de o fazer, por isso agradeço-lhe), ter acrescentado o meu comentário ao corpo principal do texto, outro colega do 5 Dias, cujo nome nem merece ser escrito, insista que eu queria ser literal quando escrevi a frase de cima. Esse canalha (não há termo que melhor defina o ser em questão) merece apenas o meu desprezo, deste momento em diante. Que continue a chafurdar na sua própria imundície, eu salto fora.
76 comentários 27 Ago 10 em IrãoO Nuno Ramos de Almeida decidiu continuar a desconversar. Noto que o Nuno desvaloriza um dos colegas de blogue. É uma saída possível para o que por ali vai. Eu tenho a mania de levar a sério os traços autoritários de uma “esquerda” que persiste em valorizar dimensões execráveis do que passa por ideia comunista em certos círculos, sem grande peso político, é certo, mas com alguma influência intelectual. Da violência ao vanguardismo, há gente com muita falta de memória a vender muitos livros por aí. No entanto, reparem que o Nuno não faz ideia do conteúdo concreto da sessão do socialismo 2010 que se intitula “Há socialismo sem democracia?”. Vai daí dedica-se a uma inacreditável brincadeira com as palavras, salta para “socialismo em liberdade” e termina com a ideia de cumplicidade com Soares, o “anti-comunismo” e quejandos. Esta é uma prática intelectual sempre pouco recomendável, mas muito útil para quem queira prosperar num nicho em expansão no mercado mediático: a crítica estarola à esquerda socialista. O segundo parágrafo não é melhor. Estou mortinho por ler no cinco dias contributos para pensar o socialismo na economia. Aparentemente, o Nuno não gosta da diversidade temática do socialismo 2010 e acha, estranhamente, que as questões da fiscalidade ou da política económica que rompe com o liberalismo estão demasiado distantes da democracia na economia. Diz ainda que falta “articulação” ao fórum. O que quer que isto signifique. Talvez a “articulação” que é dada por um disciplinado comité de funcionários, que alinham os contributos de um vasto colectivo numa proposta única e sem espinhas sobre “democracia” na economia?
34 comentários 26 Ago 10 em Sem categoria
Ontem ficámos a saber, através do i, de mais um dos segredos mal escondidos que explicam o “sucesso” dos bancos portugueses: “As comissões líquidas dos cinco maiores bancos portugueses – CGD, BCP, BES, Santander Totta e BPI – totalizaram 1,38 mil milhões de euros, o que representa uma subida homóloga de 12,6%. Por outras palavras, ganharam 7,7 milhões de euros por dia só em comissões.” Hoje, confirmamos, através do Negócios, que a banca relançou as “práticas abusivas de crédito”. A complacência do Banco de Portugal, em termos de regulação, é conhecida e é proporcional ao fundamentalismo de mercado que anima as suas prescrições para a economia portuguesa. Recupero um excerto de uma crónica que escrevi, também no i, sobre a ausência de stress na banca portuguesa:
Por que é que, apesar da liberalização dos anos 90, ainda não ocorreu um estoiro bancário digno desse nome no nosso país, tirando as falcatruas que o vício da acumulação de dinheiro como um fim em si mesmo sempre vai favorecendo – do BCP ao BPN? Algumas hipóteses explicativas: a presença de um banco público relevante, a CGD, que serve de braço financeiro para o Estado ir controlando e amortecendo, com dinheiro e gestores, os desvarios privados; a existência de níveis reduzidos de concorrência, com o sector a funcionar como se fosse um clube de cavalheiros que conspira contra o público; um sistema feito de vantagens fiscais, sem paralelo na Europa, e que, como gentilmente nos indica a Associação Portuguesa de Bancos no seu último boletim, permite, em tempos de crise económica geral, por exemplo, reduzir a carga fiscal dos bancos.
Juntem a isto um off-shore feito à medida e um governo sempre disposto, como tem de ser, a dar todas as garantias aos bancos. Acrescentem um Banco Central disposto, como também tem de ser, a financiar os bancos a taxas praticamente nulas para que estes, por exemplo, financiem o Estado a taxas de juro muito mais elevadas. E chegamos a um sector que passa nos úteis, ainda que pouco exigentes, testes de stress europeus, destinados a avaliar a solidez bancária europeia, assim mostrando que só o poder público cria pontos focais estabilizadores dos mercados. Tudo isto é mesmo uma questão de poder: o stresse é passado para as empresas produtivas, sobretudo de pequena e média dimensão, que têm de aceitar condições cada vez mais draconianas para acederem ao crédito. O liberalismo é assim: concorrência e crises financeiras, em alguns países, e relativa tranquilidade e todo o poder financeiro, nos outros. Até quando?
13 comentários 26 Ago 10 em Sem categoriaParece que a jogada de Nicholas Sarkozy – o anúncio veraneante de dureza no combate à criminalidade, o que, descontado o jargão político, significa perseguir ainda mais as minorias empobrecidas que vivem no país – não resultou, e ele vai caindo a pique nas sondagens. Vai daí, abdica-se da dureza – e do namoro com a falange lepenista – e pede-se moderação nas deportações. Expulsá-los, mas com jeitinho, não vá o eleitorado flutuante de extrema-direita recém conquistado assustar os outros votantes na UMP. Foi você que falou em ideologia e princípios?
23 comentários 26 Ago 10 em França, Racismo© rabiscos vieira
Hitler ‘had Jewish and African roots’, DNA tests show
36 comentários 25 Ago 10 em Sem categoria
Com tanta a coisa acontecida na Choupana, aparentemente envolvendo um guarda-redes espanhol de nome Roberto, que tudo indica ter custado 8 milhões e meio, preço agora aventando como absurdo em face da fraca valia demonstrada nos primeiros jogos, torna-se difícil a um portista concentrar-se exclusivamente nos golos do Falcão ou no afundamento do osso zigomático do Ukra. (…)
23 comentários 25 Ago 10 em Sem categoriaA Moody’s e a S&P baixaram a cotação da dívida japonesa em 2002. Na Moody’s está, actualmente, abaixo do Botswana e Estónia. Oito anos depois, o Japão continua a pedir emprestado a menos de um por cento.
Paul Krugman
64 comentários 25 Ago 10 em Sem categoria“Considero duvidoso que o animal humano alcance sobreviver se não aprender a dispensar fronteiras e passaportes, se não for capaz de compreender que todos somos hóspedes uns dos outros, do mesmo modo que o somos desta terra contaminada e cheia de cicatrizes.” George Steiner, George Steiner em The New Yorker
O socialismo 2010, debates para a alternativa, começa já depois de amanhã em Braga. Entretanto, o Nuno Ramos de Almeida acha que o título de uma das sessões – “Há socialismo sem democracia?” – é revelador de desorientação ideológica e de uma subestimação da questão principal: como democratizar a economia? Em primeiro lugar, notar que alguns postes do blogue cinco dias, onde o Nuno escreve, tendencialmente da autoria de Carlos Vidal, mostram precisamente a relevância da primeira questão e do seu adequado tratamento. Em segundo lugar, estou em condições de sossegar o Nuno: pelo que conheço, a segunda questão, obviamente relacionada com a primeira, será tratada directamente, pelo menos, em duas sessões. O José Gusmão falará sobre reforma fiscal para superar o que Vital Moreira chamou, num dia mais inspirado, o Estado fiscal de classe; eu e o Nuno Teles tentaremos, desenvolvendo os argumentos de um artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa, fazer um breve diagnóstico do capitalismo português, entre os especuladores e a lumpemburguesia, e apontaremos alguns toques de política económica que podem ajudar a gerar impactos sistémicos relevantes. Suspeito que nas sessões sobre a especulação, o poder de quem tem muito dinheiro, as questões do trabalho ou o banco de terras, a democracia na economia também seja abordada. É que, e nisto concordamos, sem um projecto consistente de democratização da economia, sem utopias reais, não há socialismo como democracia avançada depois do limiar do século XXI…
11 comentários 25 Ago 10 em Sem categoria
“Portugal chega a ser monstruoso pelo excesso de Estado Social”. Se fosse um dos inúmeros economistas do medo, que prosperam apenas porque praticamente não existe debate, eu não ligaria muito, mas foi a economista Helena Garrido que escreveu isto. É uma das jornalistas que admiro, devido ao seu respeito habitual pelos factos e à sua capacidade para ser social-liberal sem cair na vulgata liberal e assim enriquecer o debate. Como é que se pode olhar para os dados, mesmo muito agregados, e dizer que temos um Estado social excessivo? Percentagem das prestações sociais, categoria demasiado heterogénea é certo, no PIB? Abaixo da média da zona euro (17,2% contra 17,7%, em 2009). O quê, então? Peso dos impostos no PIB e sua progressividade? Também não: o peso da receita fiscal no PIB é de 34,8% (na zona euro é de 38,6%) e o peso dos regressivos impostos indirectos, como o IVA, na estrutura dos impostos é dos mais elevados. Aumento das despesas sociais? Bom, esse foi, felizmente, inevitável no actual contexto e mesmo assim foi insuficiente. Isto para não falar do idealismo que Helena Garrido revela quando fala numa suposta rede social que o Estado social teria destruído. Eu bem sei que os hegemónicos economistas do medo interpretam o aumento das despesas com o RSI ou com o subsídio de desemprego nos últimos dois anos como se de um súbito vírus da lassidão, que só afecta os mais pobres e vulneráveis, se tratasse. Entretanto, as sempre patrióticas e empreendedoras “classes médias” transferiram 1,2 mil milhões de euros para offshores no primeiro semestre. Como nunca conseguiram entender a crise e o aumento do desemprego gerado, resultado das desigualdades, da desregulamentação e da crença no fundamentalismo de mercado que sempre apoiaram, caem num moralismo que só revela a sua situação social confortável. Como nunca conseguiram entender a natureza disfuncional da zona euro, que sempre saudaram, esquecem que estamos trancados num conjunto de políticas de austeridade que produzem um resultado perverso: o esforço para cortar na despesa produz as condições económicas conjunturais que podem aumentar a despesa mais tarde. Sem demagogia, é preciso dizer que o estado das finanças públicas quase só depende do andamento da economia. Diz que a retoma está em risco. Pudera. O bloco central apostou num irracional e desumano corte das despesas sociais para os mais pobres, para fazer com que as transacções desesperadas se multipliquem e os salários eventualmente baixem: a crise de distribuição, a crise de procura, intensifica-se dentro de momentos e o desemprego também. A pobreza vai aumentar e assim a ideia de que estamos todos no mesmo barco torna-se um pouco mais fraudulenta. Enfim, não se toma em consideração a abordagem dos balanços financeiros sectoriais: a soma dos saldos dos sectores externo, público e privado, tem de ser igual a zero. Num contexto de crise, com o saldo do sector externo mais ou menos constante, é evidente que o esforço dos privados para reequilibrar os seus balanços, com cortes no consumo e no investimento, tem de gerar inevitavelmente um aumento do défice público. Sabendo que o cenário macroeconómico aponta para uma redução necessariamente ligeira do défice externo, então o contraproducente esforço para reduzir o défice público tem como contrapartida um aumento do endividamento do sector privado. E este dificilmente ocorrerá. Por algum lado a corda vai ter de partir e está a partir, claro. Remato brevemente com duas questões mais estruturais. Em primeiro lugar, a bota do Estado social que não bate com a perdigota da economia que temos. O Estado social construiu-se tendo como pano de fundo um processo de liberalização e de privatização, Isto gerou grupos económicos cuja hostilidade à provisão pública, que é onde está a fruta doce dos lucros garantidos, é proporcional ao seu desespero e às exigências dos accionistas. Gerou também níveis de ineficiência, de rentismo e de desigualdade que hoje podem corroer os fundamentos do Estado social. Em segundo lugar, e de forma talvez contraditória com o primeiro ponto, as tendências fortes do desenvolvimento – do envelhecimento ao aumento da importância dos serviços sociais de proximidade, da saúde e da educação, onde a superioridade da provisão socializada é evidente, passando pelas alterações climáticas, pelas insustentáveis desigualdades económicas ou pela constatação de que a finança de mercado é uma máquina de destruir capital – trabalham, no quadro das democracias, para manter e até aumentar a prazo a importância do sector público na criação de riqueza em sentido amplo e na extensão e aprofundamento da regulação. As sociedades que prosperarão são as que sabem viver pacificamente com o que a vida mostra com mais clareza em situações de risco: o peso do Estado não vai, não pode, diminuir. A questão nem sequer é essa, mas sim que ideias e que interesses controlam os recursos públicos e definem as regras do jogo.
17 comentários 24 Ago 10 em Sem categoriaQuando os nazis levaram os comunistas, não protestei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando levaram os social-democratas, não protestei, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando me levaram a mim, já não havia ninguém que protestasse.
A julgar pelos comentários que encharcam este post, as palavras de Martin Niemöller, pastor protestante alemão que se opôs ao regime nazi (palavras que costumam ser atribuídas a Bertolt Brecht) ainda terão razão de ser. A preocupação neste caso sobrepõe-se à precaução que me diz que aqueles que insultam o fazem apenas por ignorância ou medo do que não conhecem. Precaução também porque sei que estas minorias são sempre ruidosas, gostam de exibir o preconceito e a intolerância como quem exibe uma bela farpela domingueira, esburacada e rançosa. E mais uma história edificante, para quem ainda queira aprender alguma coisa (e estão à vontade para me chamar paternalista), deixada pelo comentador dedo político:
“Conotações pejorativas (que matam!)
O ‘dedopolitico’ conheceu, em determinada altura da sua vida, um ‘cidadão de nacionalidade portuguesa’ que, emigrado em França disposto a trabalhar em tudo o que lhe aparecesse para melhorar as suas condições de vida (e a da sua família), lhe disse, que o que mais lhe custou no inicio desse tempo, não foi, a falta de dinheiro, a fome, ou as más condições em que vivia, mas sim, quando ia à escola buscar os seus filhos, ter de ouvir os autóctones a dizer-lhes: “Portugais? Sale race”!*
* Portugueses? Raça suja! (tradução livre) “
Agora, venham de lá essas pedras.
(A citação de Niemöller, devo-a ao Miguel Serras Pereira).
63 comentários 24 Ago 10 em Extrema-direita, Racismo
A escolha de Francisco Lopes, um homem desconhecido do eleitorado (apesar de provavelmente ser o lider de facto do PCP) como candidato dos comunistas à presidência só pode significar duas coisas: ou o PCP desprezou a oportunidade de comer voto ao Bloco e ao PS com a apresentação de um ultra-ortodoxo (não há mais para lá dele) sem um pingo de carisma (consegue ser mais apagado do que Carvalhas); ou está a preparar a sucessão de Jerónimo. Apenas um problema: começar com uma eleição muito personalizada é o pior que podiam fazer ao homem. Agora, não podem ambicionar mais do que convencer os seus próprios eleitores. E mesmo esses, terão primeiro de descobrir quem é Francisco Lopes. E depois não chegar a saber o que ele pensa, para não se assustarem. Uma coisa é certa: a linha mais dura do PCP tomou definitivamente o poder no partido. Imaginem o que seriam estas presidenciais com um Octávio Teixeira ou um Carvalho da Silva? Mas a ortodoxia é inimiga da ousadia. Alegre e Nobre suspiraram de alívio.
137 comentários 24 Ago 10 em Sem categoria© rabiscos vieira
28 agosto, 18 horas, largo camões
5 comentários 24 Ago 10 em Sem categoriaPor vezes, o passado parece reflectir-se no presente de forma tão evidente que as semelhanças não podem deixar de provocar alarme. Em França, o processo de repatriação de ciganos romenos avança, e o que mais surpreende é o silêncio do resto da Europa perante uma acção que evoca um passado de perseguição étnica que não deveria repetir-se. Não nos podemos esquecer de que os roma, que chegaram à Europa na Idade Média, foram o outro alvo das políticas de limpeza étnica encetadas pelo Terceiro Reich, e no final da Segunda Guerra Mundial pelo menos 500 mil ciganos tinham morrido, em campos de concentração ou executados pelo exército nazi. Falar deste tenebroso passado de exclusão não é um exagero, até porque a “experiência” sarkozyana também está a ser tentada na Itália de Berlusconi. Em tempos de crise, a Europa parece querer virar-se para o “outro”, para o estrangeiro, e isso é o pior que nos pode acontecer – é sintomático que tal fenómeno tenha lugar no país do “caso Dreyfuss”, a França que Sarkozy parece querer transformar no sonho totalitário de Jean-Marie le Pen. É preciso que não se torne norma, para que não se repita o passado.
(Sobre este tema, a crónica de Rui Tavares, hoje no Público, é exemplar – sem link, mas neste post Miguel Serra Pereira tem a gentileza de republicar alguns excertos. Assim como este texto de Rui Bebiano.)
173 comentários 23 Ago 10 em Europa, Racismo
Espiões militares seguem para teatro de operações do Afeganistão no Outono. O ministro acredita que também no Líbano – os militares portugueses participam na UNIFIL – deve haver este “instrumento”. Augusto Santos Silva, ao I.
Espiões militares portugueses é um eufemismo, ou um código militar, quem sabe, para caracterizar aqueles sujeitos cujos nomes costumam circular com maior rapidez e publicidade que os números de telefone das páginas amarelas. Mas, se forem tão bem treinados como os seus colegas civis, isto vai ser rápido.
14 comentários 23 Ago 10 em Governo, um disparate nunca vem sóZhou Enlai, um dirigente comunista chinês, foi um dia questionado sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, ao que ele terá respondido que ainda era muito cedo para saber. Imaginem então o que dizer de um processo tão incerto como o da transformação da China em nova potência hegemónica, assente numa economia em expansão industrial, que ultrapassou o Japão e que, a manter-se esta trajectória, se tornará a maior economia. O resto da crónica no i pode ser lido aqui.
Nota bibliográfica. Sobre China, tenho lido com proveito as análises de David Pilling no Financial Times, os artigos de Hang Dongfang sobre as lutas laborais e o que se tem escrito na New Left Review, a minha revista preferida de ideias de esquerda: por exemplo, este artigo de Sanjay Reddy sobre as reformas de mercado e a evolução dos indicadores de saúde ou este de Hang Ho-Fung sobre a dependência face aos EUA.
3 comentários 23 Ago 10 em Sem categoriaSuécia cancela mandado de captura contra criador da WikiLeaks.
Lá como cá, as autoridades judiciais também se enganam e se precipitam. Mas lá rapidamente corrigem o erro. E assim se prova que Julian Assange está a fazer um excelente trabalho de denúncia, alternativo aos media tradicionais – que parecem ter-se esquecido do jornalismo de investigação desde que paulatinamente começaram a ser aglutinados em grandes grupos de comunicação. Para quando um site semelhante em Portugal? Ah, é verdade, a fuga de informação de processos em curso é pecado, Deus castiga…
38 comentários 21 Ago 10 em JornalismoO novo documentário – South of the Border – de Oliver Stone promete. Até porque o argumento foi escrito por Mark Weisbrot e Tariq Ali. Tenho acompanhado o trabalho do economista keynesiano Mark Weisbrot do Center for Economic and Policy Research. Weisbrot tem registado com todo o rigor o progresso socioeconómico dos governos de esquerda na América do Sul. Os trabalhos sobre a Venezuela e a Bolívia ou este artigo traduzido pelo esquerda, por exemplo, são um bom antídoto contra a desinformação que grassa por aí. Tariq Ali, por sua vez, é um infatigável activista-jornalista-ensaista-escritor, um daqueles imprescindíveis que nunca confundiu, ao contrário de tantos da geração de sessenta, as derrota políticas com as derrotas das ideias socialistas bem entendidas e que tem, entre os seus inúmeros livros, um magnifico ensaio sobre o “eixo da esperança” no sul. A ler antes e depois de ir ao cinema, que o documentário deve estrear em breve.
56 comentários 21 Ago 10 em Sem categoriaEm um ano e meio, passámos de ser “humilhados” pelo Bayern, uma das 3 maiores equipas do Mundo em 2010, nos oitavos de final da Champions, para ser “humilhados” pelo Bröndby, uma das 3 melhores equipas da Dinamarca em 2010, na pré-eliminatória da Liga Europa.
Ou seja, largámos o convívio (às vezes doloroso) dos grandes da Europa (Inter, Manchester, Barcelona, Bayern, Roma) e as presenças nos oitavos/quartos de final das competições europeias e voltámos ao tempo em que éramos a alegria do Genclerbirligi, do Viking e do Halmstads e nos ficávamos pelas duas primeiras rondas.
Entretanto, já tínhamos largado as “tacinhas”, goleados que fomos pelas equipas “B” do FC Porto e Benfica, equipas contra as quais, desde 2006 (e pela primeira vez desde os anos 50) tínhamos mais vitórias que derrotas – bem como os “péssimos segundos lugares, trocados por um magnífico quarto (com vista tão boa para o primeiro lugar como para o último: 27 pontos).
Desde Janeiro, gastámos 29 milhões de euros em contratações de jogadores (quase todos monos com mais de 28 anos de idade), enquanto despachámos 2 dos nossos 4 jogadores mais valiosos por menos que isso (isto porque dos outros dois, um já tem 32 anos e o outro recusou ser vendido).
Noto que, entre Julho de 2006 e Janeiro de 2010, o total gasto em contratações pelo SCP foi de 24,5 milhões de euros – menos um milhão do que rendeu só a venda do Nani, e menos 5 milhões do que gastámos nos últimos seis meses (e foi com isto que se ganharam as “tacinhas” e os segundos lugares, e se jogou contra os colossos da Champions).
E nem sei quanto o JEB gastou no Carvalhal, no Sá Pinto, no Costinha, no Paulo Sérgio (por este parece que pagou 600 mil ao Guimarães), nos amigos que despediu e recontratou para “prestar serviços” ao SCP, e na tenebrosa campanha de comunicação montada no dia em que o nosso capitão foi vendido ao FC Porto (jornaleiros do “amigo Joaquim”, “paineleiros” e até comentadores “multi nick” nos sites generalistas e na “blogosfera leonina”).
Quanto a receitas, pela primeira vez, desde 2006, não vamos (tudo indica) receber a contrapartida da participação nas fases de grupos da Champions’ ou da Liga Europa. Os lugares de época e os camarotes de empresa foram vendidos com grandes descontos, a prestações e na sequência de dispendiosas campanhas de marketing.
Tudo isto aconteceu desde que uma, e só uma pessoa saiu de Alvalade. Como essa pessoa saiu porque os “sportinguistas” tudo fizeram que isso acontecesse (os mesmos “sportinguistas” que 9 em cada 10 votaram no JEB, faltaram ao jogo do Iordanov, vaiaram o Izmailov, insultaram o Moutinho por ter “forçado” a sua venda ao Porto e acham que “ajudar o Sporting” é chamar nomes ao Benfica e pagar os salários do JEB, do Costinha e dos cabecilhas das claques), digo-lhes apenas, citando a palavra do Senhor, “que la chupen e que la sigan chupando”! - pescado neste post.
Eu, que até sou benfiquista, achei que este comentário de JPT era especialmente certeiro no diagnóstico que faz ao actual Sporting. Vá lá, pessoal da segunda circular, não queiram passar pela vossa fase “Artur Jorge”.
40 comentários 20 Ago 10 em DesportoDepois dos submarinos, blindados. A batalha naval organizada pelo ex-ministro Paulo Portas – o líder do tal partido que faz parte do arco da governação, e vê-se por este exemplo que deve fazer mesmo – conta agora com a força de uns blindados última geração (experimentais, parece), prontos para derrotar qualquer Burkina Faso (ou mesmo Liechtenstein) que nos possa invadir. Tudo muito turvo? Nem pensar. Provavelmente estes tanques hight tech foram comprados para serem um transporte alternativo ao táxi que os deputados do CDS-PP costumam utilizar. Para passar por bairros problemáticos, com muita criminalidade e tal. Mas a menina Cândida agora vai investigar – o chefe manda, alguém tem de obedecer.
28 comentários 20 Ago 10 em Paulo Portas, Plástico, PolíticaApós o mundial consolidou-se em mim a inevitabilidade da saída de Carlos Queiroz, não tanto pelos resultados, mas pela notória fragilidade da sua liderança, dado mais que patente nas declarações de descontentamento de vários jogadores – não é o descontentamento em si que surpreende, mas ter sido manifestado com tamanha desfaçatez. Fico com a sensação de que a ausência de carisma em Queiroz, bem como os surtos de agressividade com que tenta disfarçar essa mesma ausência, o condenam sem apelo perante alguns jogadores de selecção pouco dados a respeitar treinadores com menor estatuto mediático, como o condenam perante uma opinião pública que, num estranho apego ao “texto”, valoriza desproporcionadamente o desempenho dos treinadores nas conferências de imprensa.
Hoje, em função dos processos que estão a ser movidos a Queiroz, seja por ter insultado Luis Horta por mãe interposta, seja por ter chamado a Amândio Carvalho, vice-presidente da federação, de “cabeça do polvo, começo a ficar convencido da inevitabilidade de lembrarmos o dia em que Sclolari deu um bofetão a um jogador sérvio, à frente das câmaras de todo o mundo, para assim pôr a nu os tentáculos da hipocrisia que grassa na Federação. Aquando do chapadão de Scolari, a Federação fingiu-se indignada e lá defendeu a sua dama com unhas e dentes. Hoje, a Federação finge indignações sucessivas para justificar o que toda a gente já percebeu: querem despedir Queiroz simulando um coração apertado. Para “razão atendível” teria bastado, após o mundial, uma decisão corajosa para a substituição do seleccionador. Para justa causa sobra-lhes hipocrisia. Uma decisão certa pelas razões erradas é uma decisão errada. Se Queiroz sair pela sensibilidade candente das virgens ofendidas, Luís Horta ou Amândio Carvalho, será tomada uma decisão errada: porque fora de tempo, porque movida a manigâncias de gente sem coragem. Depois da risível substituição de Hugo Almeida, as gentes da Federação realmente precisavam de ser muito torpes para nos obrigarem a defender a não substituição de Carloz Queiroz.
Publicado no Aparelho de Estado.
28 comentários 20 Ago 10 em Sem categoriaLR do blasfémias anda embevecido com o sucesso do modelo asiático de crescimento. Miguel Madeira, do já imprescindível vias de facto, temperou a excitação com um pouco de bom senso empírico. Aliás, é com interesse, mas sem surpresa, que tenho visto muitos “liberais” seduzidos pela combinação duradoura de autoritarismo político e de capitalismo em desenvolvimento na China. No entanto, creio que este entusiasmo é mais o produto de um mau esforço de propaganda do que o resultado de uma análise das características da formação social chinesa, uma opaca combinação de diversos modos de produção, ou do modelo asiático, assente na ideia do Estado desenvolvimentista. O que é que os liberais apreciam no original híbrido económico chinês? A complexidade e dispersão dos diversos direitos de propriedade, por exemplo da terra, ao arrepio de todas as cartilhas? A correspondente facilidade com que o Estado pode desenvolver as infra-estruturas do país? O controlo estatal quase total do sector bancário (a banca pública representa mais de 80% do total)? O controlo de capitais, típica política desenvolvimentista, que permitiu, por exemplo, escapar à turbulência financeira do modelo liberal? Os fundos de investimento soberanos, que andam por aí a comprar empresas e títulos da dívida pública, um instrumento de política industrial e de influência diplomática? As políticas industriais agressivas de inserção internacional, típicas do “Milagre Asiático”, com muitos subsídios e exigências de transferência de tecnologia, que muito teriam orgulhado List e que são apontadas pela tradição do “mercado governado”, substituídas, depois da adesão à OMC, por uma política cambial deliberadamente calibrada, controlada publicamente para desvalorizar a moeda e assim aumentar a competitividade das exportações? A forma como a China sempre recusou o Consenso de Washington e de como replicou o modelo do Estado desenvolvimentista asiático? A recente política de estimulo económico, assente no investimento público e no aumento das despesas sociais, acompanhada, entre outros países, pela Coreia do Sul e que muito satisfaz os keynesianos? A lenta reconstrução da provisão, publicamente suportada, de saúde depois do desmantelamento da boa herança comunista nesta área, desmantelamento que muito contribuiu para a compressão do consumo interno de que agora muitos se queixam e para a relativamente medíocre evolução dos indicadores de saúde depois da década de oitenta? Talvez tenham apreciado os esforços teóricos para inserir a classe empresarial no partido único de vanguarda? Talvez os adeptos da pureza económica liberal se tenham convertido ao pragmatismo e experimentalismo económicos chineses, que muito agrada aos pragmatistas na economia política do desenvolvimento? Não. Talvez gostem mesmo é da repressão do movimento operário independente, mas que apesar de tudo se afirma, e que constitui uma grande esperança para todos os que acreditam nas virtudes da acção política autónoma das classes trabalhadoras?
8 comentários 19 Ago 10 em Sem categoriaNa semana passada, havia uma data escolhida pela FIFA para jogos de preparação das selecções nacionais. Apenas duas não a aproveitaram. Foram elas São Marino e Portugal. Certo. Curiosamente, a ausência deste jogo de preparação, numa data aproveitada por todos (incluindo os adversários do nosso grupo), não chegou a ser notícia nos jornais da especialidade e nas secções de desporto dos diários generalistas. Carlos Queirós aguardava, com toda a tranquilidade, o resultado do inquérito instaurado pela Federação. Hoje, soube-se que será suspenso por um mês, falhando os dois primeiros jogos de qualificação. A pergunta que se impõe deveria ser esta: mas está tudo louco? Como é possível achar-se normal esta sequência e ninguém reclamar a sério, para acabar de vez com o regabofe liderado por esse ícone da incompetência e do carrerismo que é Gilberto Madaíl? Antes do Mundial começar, eu achava que o pior que podia acontecer à selecção era chegar aos oitavos-de-final e perder com a Espanha. Porque assim, haveria sempre a desculpa de termos perdido com os melhores e a força para empurrar Queiroz seria quase nula – e este nunca se demitiria, nem que perdesse os três jogos da primeira fase. Assim sucedeu. O pretexto que tentaram arranjar para o mandar embora está ao nível da pessoa responsável (Gilberto Madaíl) pela manigância: baixo, muito baixo. E o ridículo espectáculo montado na sede da federação – o desfile dos representantes do sistema (Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira) acompanhados do amigo Ferguson e do pesetero e aficionado de pequenos-almoços institucionais Luís Figo – foi adequado à pífia ópera bufa a que temos assistido. Portanto, está tudo bem, estamos bem servidos por mais uns anos, com a conivência dos untuosos jornalistas desportivos do costume e a anuência obesa dos comentadores do rescaldo da jornada. É apenas bola? Não, é o país que temos. É muito.
39 comentários 18 Ago 10 em Desporto
Estive a ler alguns artigos do livro “Socialismo no século XXI”. Uma iniciativa do economista Duarte Cordeiro, até há pouco tempo secretário-geral da JS e actual director da campanha de Manuel Alegre. Num dia em que se confirma que o desemprego de longa duração atingiu máximos históricos e em que sabemos que o consumo de antidepressivos não pára de aumentar, esta passagem do primeiro capítulo do livro, escrito por Arons de Carvalho e Duarte Cordeiro, parece-me particularmente pertinente: “O mundo parece ter aprendido pouco com esta crise financeira, económica e social, e as soluções de austeridade apresentadas na generalidade dos países aumentarão ainda mais a recessão, o desemprego e as desigualdades sociais. São necessárias novas soluções e os Partidos Socialistas e Social-Democratas devem liderar esse caminho”. O problema é que nos poucos países europeus onde estão no poder estão mas é a liderar o caminho oposto. O contributo de João Ferreira do Amaral, em meia dúzia de páginas, ajuda ajuda a explicar porquê e merece destaque: a social-democracia abandonou a ideia keynesiana de que “o essencial para a obtenção do pleno emprego é manter um alto nível de procura agregada”. Depois de apresentar e descrever os eixos de uma política económica de “esquerda democrática” (como se pudesse existir outra esquerda…) – redução das desigualdades sociais, valorização do trabalho, produção de bens públicos e subordinação do poder económico ao poder político –, Ferreira do Amaral coloca o dedo nas feridas da social-democracia europeia, em especial na grande armadilha em que a social-democracia caiu – a integração europeia realmente existente depois de Maastricht: “Muito mais que um instrumento de regulação da globalização, a União tem-se transformado, pelo contrário, num veículo de transmissão da globalização desregulada até nossas casas. Por isso, não é hoje possível fazer uma política de esquerda na União. Não é possível valorizar o trabalho, porque todo o ajustamento macroeconómico incide negativamente sobre ele. Não é possível regular a maior parte dos mercados de acordo com as necessidades de cada economia (…) Daí também a grande tragédia dos líderes socialistas que se vêm obrigados a seguir políticas à revelia das concepções dos partidos que lideram”. A tragédia é ainda maior: as estruturas europeias e globais favorecem a mutação das próprias concepções dos partidos social-democratas. Pior: há quem chame “modernização” a esta desgraça. A neoliberalização, o esvaziamento em curso, da social-democracia é um problema para toda a esquerda.
18 comentários 18 Ago 10 em Sem categoriaUma academia de futebol é isto:
Jorge Costa: Treinador da Académica
Domingos: Treinador do Braga
Villas-Boas: Treinador do Porto
Mourinho: Treinador do Real Madrid
Fernando Couto: Director Desportivo do Braga
Costinha: Director Desportivo do Sporting
Pedro Emanuel: Treinador Adjunto do Porto
Vítor Baía: Futuro Presidente do Porto.
Antecipando com satisfação a torrente de comentários com alusões a Salvaterra de Magos, a Sintra e ao aborto de “criancinhas” que vai inundar este post (e que eu vou olimpicamente ignorar), deixo aqui um link para uma petição contra um dos últimos resquícios de bestialidade primitiva que ainda restam no nosso mundo: a tourada. Para acabar, sim, com a barbárie, mas também com a ideia de que um espectáculo que celebra a violência da lei do mais forte tem alguma coisa a ver com cultura.
203 comentários 18 Ago 10 em Sem categoriaOlha, olha, Pedro Santana Lopes a dizer uma coisa sensata, pertinente e contumaz – e, de passagem, a acertar contas antigas. Pedro Passos Coelho, o salvador da pátria laranja (e, por arrasto, do partido da trela do poder, o CDS-PP), em pleno Pontal, lado a lado com Mendes Bota, ameaçando o Governo – uma bela imagem que os adversários internos do PSD (os mesmos que elogiaram a ausência de Marques Mendes e Manuela Ferreira Leite no passado) se esqueceram de criticar. Já cheira a Poder, não é?
(Via 31 da Armada – agora não se esqueçam de me chatear por fazer um link para um blogue perigosamente direitista.)
18 comentários 17 Ago 10 em O PSD é mais engraçado que os gato fedorento, Política“Terá de existir a propriedade privada de grandes obras de arte, acompanhada de tudo aquilo que essa propriedade acarreta de riscos materiais, de cobiça, de exclusão das correntes do pensamento e do sentimento gerais? A interrogação torna-se ainda mais premente quando o quadro, a escultura ou produção de arquitectura em causa foram concebidos tendo em vista antes do mais a exposição pública como é, evidentemente, o caso da maioria das obras da Idade Média, do Renascimento e dos séculos XVII e XVIII. Dizer que os coleccionadores privados, sobretudo nos Estados Unidos, têm sido generosos por permitirem que alguns convidados eruditos dêem uma olhadela aos seus tesouros (nem sempre o fazendo, na realidade), não é resposta. Deverá a simples riqueza ou a especulação febril do investidor determinar a localização e o acesso a algumas produções do legado humano, universais e sempre insubstituíveis? Há ocasiões em que penso que a resposta deve ser categoricamente negativa: as grandes obras de arte não são, não podem ser, propriedade privada. Mas não tenho a certeza.”
George Steiner, “O Sacerdote da Traição”, George Steiner em The New Yorker.
20 comentários 17 Ago 10 em Sem categoriaAqui há uns dias, jmf1957 espevitou-se com uma notícia que indicava serem os portugueses quem mais gasta com a Saúde na Europa. Cerca de 8% do orçamento familiar vai para esse tipo de despesas. Ora, com estes números, seria de esperar que jmf1957 se indignasse com o preço dos tratamentos nos hospitais e clínicas privadas, com o excesso de auto-medicação (especialmente nos idosos) ou, sobretudo, com a ridícula fatia que os genéricos têm no mercado português. Seria de esperar que ficasse irritado com os hábitos da maioria dos médicos portugueses, que continua a recusar autorizar genéricos quando passa uma receita. jmf1957 sabe isto, e sabe que, num país onde tal acontece, é natural que as despesas de saúde levem grande parte do orçamento das famílias. E a percentagem (é disso que falamos) ainda se agrava mais porque é claro que o ordenado médio em Portugal é bastante inferior aos outros países europeus analisados, e portanto basta fazer as contas (explicitando: o preço dos medicamentos em Portugal não difere muito dos outros países europeus, portanto o peso deste bem no orçamento mensal das famílias é, evidentemente, maior). jmf1957 sabe tudo isto (e eu sei que ele sabe) mas preferiu insurgir-se contra o Serviço Nacional de Saúde e a sua tendencial gratuitidade. Agora, jmf1957 tem mais uma oportunidade para perceber o peso que o lobby farmacêutico tem na economia da Saúde em Portugal. Para além das pessoas, as empresas – que os hospitais também começam a ser. Talvez o coração “liberal” de jmf1957 bata mais forte. Ou não. Na verdade, jmf1957 tem razão numa coisa: “há mentiras que, repetidas muitas vezes, até parece que são verdades”.
28 comentários 17 Ago 10 em estes liberais são uns brincalhõesOs milionários norte-americanos andam numa azáfama filantrópica de milhares de milhões de dólares. O sucesso dos seus negócios convence-os de que podem aplicar as fórmulas empresariais para resolver a questão social. Bill Gates e outros exibem a típica arrogância que o dinheiro concentrado e a adulação geram.
E, no entanto, parece evidente que, a existirem capitalistas milionários, é melhor tê-los filantropos. Acontece que escolher entre duas alternativas dadas não implica consentir com a estrutura que gerou escolhas tão limitadas.
O resto da crónica no i pode ser lido aqui.
43 comentários 17 Ago 10 em Sem categoriaUm belo exemplo da plenipotência do comentarismo publicista nacional: Pacheco Pereira acusou uma jornalista, Teresa Canto Noronha, sua colega na SIC (o que, para o caso, é pouco relevante), de “preconceito”, “asneira” e “ignorância”, numa peça em que aquela se refere ao Vaticano como sendo uma monarquia absoluta. Ela mostra a sua indignação e a redacção dá-lhe razão, até porque a classificação de “monarquia absoluta” aparece na página oficial do Vaticano. Pacheco Pereira irá continuar calado, mas entretanto quem viu a peça (felizmente, tirando uns quantos comentadores de blogues e outros apaniguados intermitentes da blogosfera, serão poucos os que assistem à homilia semanal pachequiana) terá ficado, quem sabe, chocado com tal “preconceito” e, sobretudo, mal-informado. Um exemplo, apenas um, do enviesado poder que estas sinecuras detêm na actual democracia mediática.
(Via Jugular.)
52 comentários 15 Ago 10 em Sem categoriaAdam Kohn, sobrevivente do Holocausto, decidiu celebrar em Auschwitz e outros lugares da sua via sacra (o gueto de Varsóvia, o museu que Hitler quis criar para assinalar o extermínio dos Judeus) a sua sobrevivência. O vídeo, ideia da filha, mostra Kohn e a sua família dançando nestes lugares ao som de “I Will Survive”, de Gloria Gaynor – e também de Leonard Cohen, no final. Uma celebração, sem dúvida, da resistência à morte e à mais absurda violência, uma espécie de riso na cara do destino, contra todas as probabilidades e contra – também – as críticas dos zelotas, os de sempre, quem julga deter o exclusivo do sofrimento e reclamou de tal sacrilégio. Um exemplo.
(Notícia aqui.)
22 comentários 14 Ago 10 em Sem categoriaOmar Khadr, um menino-soldado obrigado pelos pais a passar pelos campos de Ben Laden e que foi preso com 15 anos pelos americanos, está a ser julgado por um tribunal militar. Foi ilegalmente interrogado, ilegalmente mantido, durante oito anos e sem acusação, numa numa prisão ilegal e está a ser ilegalmente julgado por um tribunal que só pode ser ilegal em qualquer Estado de Direito.
O responsável da secção do Canadá da Amnistia Internacional (Omar tem nacionalidade canadiana) resume bem a coisa: “Este não é um caso que levante apenas uma questão de direitos humanos. Ele demonstra todos os problemas potenciais que existem aqui. Ou seja: a questão do julgamento injusto, a questão das crianças-soldado, a questão da detenção prolongada antes do julgamento, a questão dos depoimentos obtidos sob tortura. Está tudo aqui.”
Tudo neste processo é uma vergonha para os Estados Unidos e para Obama, que prometeu acabar com esta farsa que se tenta fazer passar por justiça. As crianças envolvidas em conflitos militares são vítimas, nunca culpadas. E Omar Khadr já é vítima há demasiado tempo. Tem 23 anos. Depois de uma infância em cenário de guerra, são oito anos a servir de brinquedo político para cobardes.
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